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Será inspiração divina?

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.08

O President lá chegou à conclusão (finalmente) que, se não o travam, o PS atropela tudo e todos. Deve ter sido inspiração divina. Lá veio fazer o aviso à navegação. Ficámos a saber, como analisou Joaquim Aguiar no Vice-versa da RTPN, que a sede de poder do PS é insaciável, ao ponto de “humilhar” o próprio President, o da “cooperação estratégica”.


Mas foram os “falinhas mansas” (a que o PS encomendou o sermão), que vieram dizer baixinho, que isso do equilíbrio de poderes institucionais não é coisa com que percam tempo ou, como Costa Pinto, no mesmo Vice-versa, a tentar relativizar a gravidade da questão, que não, que não haverá conflitos porque terão de se concentrar na crise e que o PS se mantém à frente nas sondagens... Enfim, também ficámos a saber que os “falinhas mansas” têm a sua utilidade (para o PS, claro!)


Mas aqui os que me interessam são os que revelam a tal inspiração divina, como o Joaquim Aguiar que, aliás, nunca me decepcionou na sua perspicácia e lucidez. “Aqui não é a imagem que conta”, responde à pergunta da jornalista sobre a imagem do Presidente ter ou não ficado abalada com todos estes incidentes, “não são as aparências que contam, são os poderes. Aqui o Presidente mostrou a limitação dos seus poderes. E também mostrou o poder do primeiro-ministro, até de humilhar o próprio Presidente.”

Quanto “à evolução das circunstâncias”, referiu a aprovação rápida do OE 2009 pelo Presidente, de “um orçamento falso” e alertou para a nossa perda de credibilidade no exterior. “Em Janeiro, Fevereiro, o país entrará em graves dificuldades.” (Julgo que aqui se estava a referir à dificuldade de arranjar crédito no exterior. Estão a ver agora porque gostariam de antecipar as eleições? E foi Santana Lopes a percebê-lo, de novo a inspiração divina...)
Sim, um Joaquim Aguiar inspirado: “Quem vive de propaganda acaba sempre por cair.” Costa Pinto bem tentou dar ali umas pinceladas coloridas ao cenário, mas não foi convincente (como, aliás, nunca é). Finalmente, quando a jornalista lhes desejou um Bom 2009, um Joaquim Aguiar risonho acrescentou: “Sobretudo um 2010”! A jornalista riu-se. (E eu também...)


Mas o melhor da inspiração divina já tinha sido na Sic Notícias. Alguma vez imaginaram ouvir Mário Crespo a falar aramaico? Pois bem, foi assim que concluiu a entrevista a D. Carlos Azevedo. E não fui só eu a ficar de boca aberta, o próprio entrevistado não estava à espera daquela e ficou de olhos esbugalhados.
Façamos rewind: D. Carlos Azevedo escreveu um livro, “Ribeiros de Esperança”. A entrevista girou sobre o livro e sobre a melhor forma de lidar com a crise actual. A proposta é a do silêncio: “para ouvir o que Deus quer, numa grande humildade e discernimento de espírito.” Interessante esta perspectiva da tónica numa consciência pessoal: “O verdadeiro crente anda sempre à busca. É necessária uma grande humildade, a dimensão que nos ajuda a entrar em comunhão com o outro.”
Aliás, a humildade aqui é vista como a dimensão que distingue o verdadeiro crente do fundamentalista. À pergunta de Mário Crespo sobre os conflitos religiosos, D. Carlos Azevedo responde de forma muito simples: “Sempre vimos na história invocar o nome de Deus em vão...” E acrescenta: uma coisa é querer “possuir Deus”, outra é procurá-lo...
E ainda a humildade como a dimensão que permite a cada um aceitar os seus momentos de dúvida e de angústia: “Temos dentro de nós um anjo mas também um monstro.” Somos capazes de fazer o bem mas também somos capazes das coisas mais horríveis.

De referir ainda a necessidade de uma "ética para a política" e de uma "ética para a religião". E que iriam promover um curso de ética política já no início do ano. 

E já me esquecia de referir o que D. Carlos Azevedo disse sobre a liberdade ou antes, a actual falta de liberdade que verifica nas pessoas: tenho de... fazer isto, fazer aquilo, vivem condicionadas, acorrentadas a exigências materiais sobretudo. Conheço muito poucas pessoas verdadeiramente livres. E lembrou a perplexidade com que as pessoas encaram as propostas radicais, dos que cortam as amarras e seguem um qualquer apelo de uma vida com outras prioridades, como S. Francisco de Assis no seu tempo (e outros, que não fixei...)


Finalmente, ainda a propósito de inspiração divina, fiquei muito comovida com uma breve notícia que tinha visto na televisão no dia anterior, e que associei de imediato ao “milagre da multiplicação dos peixes”, um dos meus preferidos na minha infância:

Na Igreja de Santo António (Lisboa) há o hábito antigo da distribuição semanal de dois pães e 5 euros pelas pessoas que a eles recorrem. Ouvir o padre responsável (parecia tirado de um daqueles filmes do John Ford numa Irlanda acolhedora e festiva) dizer que nunca nos faltou para dar pois nunca faltaram amigos a colaborar, ou com géneros, ou com dinheiro, ou com o envio de cheque, mesmo do estrangeiro... (Foi o que eu percebi). Impossível não ficar comovida! Impossível! Para mim, era mais uma repetição dessa história acolhedora e festiva da “multiplicação dos peixes” da minha infância!


Um 2009 inspirado é o que desejo a todos os Viajantes! Com inspirações divinas como estas, adivinho um ano interessante, no mínimo! E não esquecer:
o melhor filão está dentro de nós!

 

 

publicado às 10:17

O processo de domesticação sistemática

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.08

Ultimamente tenho acompanhado, nas minhas navegações, uma certa polémica sobre assuntos que coloco no domínio do privado de cada indivíduo, que são da responsabilidade de cada um e não da sociedade como grupo: o direito à sua realização pessoal como sujeito da sua própria história. Só como sujeito da sua própria história cada um poderá participar na história da sua comunidade. E na história do seu país.


Também verifico uma sede enorme do poder (Estado, Igreja, etc.) de interferir na construção de um caminho que, a meu ver, é do domínio privado. Da parte do Estado, com a intenção clara de domesticação sistemática do cidadão comum. Converter o cidadão às vantagens de uma filosofia pragmática e funcional, torná-lo uma peça bem oleada da engrenagem (era também assim no Estado Novo, ou já não se lembram?).


Um cidadão que é sujeito da sua própria história e que participa de forma responsável na história da sua comunidade não embarca nisto. Não se transforma num mero contribuinte nem num mero eleitor de 4 em 4 anos. Não aceita passivamente, de forma conformista, o destino medíocre que o Estado lhe reserva na sua história, na da sua comunidade, na do seu país.


A meu ver, o Estado devia simplesmente limitar-se a assegurar que seja cumprida a máxima constitucional: que todos tenham os mesmos direitos perante a lei, que nada os discrimine. Mas a partir daí não deverá interferir e pôr-se a legislar contra o núcleo social (a família) que, com todas as suas fragilidades, ainda é o mais saudável (até surgir outro melhor). E nem devia hesitar em garantir, a quem se organiza de forma diversa, a sua possibilidade, em igualdade de circunstâncias (fosse lá com que designação fosse).


Quanto à Igreja o seu papel é, a meu ver, lembrar a cada indivíduo o seu papel, a sua responsabilidade perante si próprio, pela sua realização pessoal plena, nas suas diversas dimensões (e não só a material ou a do imediatismo). Poderá lembrar-lhe o seu papel e responsabilidade na construção de uma comunidade mais justa e solidária, por exemplo. Poderá ainda lembrar-lhe que a sua realização plena passa pelos afectos e que os afectos implicam uma consciência abrangente (e não a que é agora valorizada, a sua funcionalidade).


Mas a forma como cada um organiza a sua vida familiar, por exemplo, deverá ser da sua própria responsabilidade. É este o discurso que mais me agrada em certos meios da Igreja: a abertura a todas as novas formas de organizar vidas e afectos, desde que respeitem todos os envolvidos. Mas é preciso entender o seguinte: o Papa está condicionado ao discurso oficial da Igreja. E actualmente, em que vemos por todo o lado governos pouco amigos da família e esta tentativa evidente de desmantelar o núcleo familiar, a coesão entre os indivíduos e a responsabilidade de todos os envolvidos (leis do aborto, divórcio, eutanásia), o discurso oficial da Igreja tem de ser mais firme: a lógica da vida deve sobrepor-se à lógica da morte.


Sim, e lá iremos cair inevitavelmente no papel da Educação na construção dessa autonomia de cada indivíduo, que o habilita a participar de forma responsável na história da sua comunidade e do seu país. A Educação era um dos alvos a atingir (desculpem a linguagem bélica mas ainda estou sob o efeito traumático das imagens da Faixa de Gaza). Era fundamental para o Estado, digamos assim, formar clones facilmente domesticáveis. Filosofia? Who needs it? Música? What for? Qualidade? Exigência? Who cares? Dêem computadorzinhos às criancinhas, com sorte entretêm-se até terem idade de votar (em nós, está claro!) Visão simplista? You bet! Mas a visão mais simples é, por vezes, a que se aproxima mais da triste realidade.

E isto tudo só para falar da domesticação sistemática...

 

publicado às 09:46

O cinismo de Israel

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.08

Por mais que eu tente, não consigo compreender o que se passa na Faixa de Gaza. Nem consigo aceitar assim de ânimo leve qualquer justificação de Israel. Aquelas três múmias inexpressivas, vestidas de escuro, quais inquisidores (onde está a diferença?), Tzipi Livni, Olmert e penso que seria ainda o ministro da Defesa, Barak... só me conseguem inspirar uma profunda aversão.

Que cinismo vir justificar-se com os mísseis do Hamas para o sul de Israel... ou o fim das tréguas. O que se passou na Faixa de Gaza não tem qualquer justificação, pelo menos para mim. E mesmo que os ingleses, através de Gordon Brown compreendam Israel, ou os EUA, através de Condoleezza Rice o justifiquem desde que não ataquem civis (percebi bem?) a mim tudo me parece absolutamente primitivo, abusivo, criminoso.

 

Mas esta marca bélica de Israel não me surpreende. É a sua marca registada. Sinto (ou pressinto) que Israel não sabe viver em paz. Não sei explicar melhor, é uma sensação minha. Que procuro aprofundar em leituras várias. Podem dizer-me, e o terrorismo de que têm de se defender? Certo. O terrorismo é injustificável. Segue a lógica da morte. Mas  essa é também a lógica da linguagem do poder (de Israel): a lógica da morte.

 

Nestas lógicas de morte, é sempre o povo que sofre. Nestas lógicas do predador e da vítima que por sua vez será predador de outras vítimas, é o povo que sofre. E isto é terrível.

 

 

Obs.: Já aqui falei em E se a política caseira é indigesta a internacional é intragável!, num documentário do canal ARTE sobre a fundação Barenboim-Said e um concerto da sua orquestra em Ramallah. Ora bem, no referido documentário também mostraram um incidente diplomático (no mínimo) entre o maestro Barenboim e a ministra da Cultura de Israel.

Eu explico: vários representantes da Cultura israelita escolheram premiar o maestro Barenboim pelo seu trabalho artístico e pela forma exemplar como tem representado o seu país (!). Barenboim aproveitou a ocasião para incluir no seu discurso uma referência à paz, com que sonha, entre Israel e a Palestina. E fê-lo de uma forma muito correcta: pegou nos princípios da Declaração de Indepedência do Estado de Israel, mais ou menos o que aqui equivaleria, julgo eu, aos princípios da Constituição.

Pois bem, a ministra da Cultura de Israel foi ao púlpito responder à letra (nunca tinha visto este furar de protocolo) ao maestro, neste teor autoritário e censório: Lamento que o maestro Barenboim tenha aproveitado este Prémio que lhe foi atribuído pelo seu país para atacar o seu próprio país. Só faltou chamar-lhe traidor. E ainda acrescentou que, por ela, o prémio não teria sido atribuído a Barenboim, mas que tinha cedido à vontade dos colegas... Nunca tinha visto em toda a minha vida pessoa mais mal-educada, sem a mínima noção de saber estar em público e respeitar o próximo, de um primitivismo boçal inqualificável.

Um pouco a tremer da ansiedade, o maestro não se dá por vencido e, da forma o mais simples e digna possível, pede de novo a palavra para referir que não atacou Israel, apenas leu os princípios da sua Declaração de Independência, que já andavam esquecidos...

São tristes episódios como este, e carregados de significado, que mostram o verdadeiro rosto do poder de Israel: primitivo, bélico, boçal. Pelo menos, é assim que o vejo.

 

publicado às 21:03

A cultura da amabilidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.12.08

Depois de Jorge Luís Borges me ter acompanhado neste Verão, e recentemente ter descoberto este maravilhoso A Pesca à Linha – algumas memórias de Alçada Baptista, ficou-me esta ideia de toda uma época que cultivava a amabilidade. Toda uma época que se está a esfumar...


A forma áspera e rude como as pessoas se relacionam, o ódio que pressinto como sentimento dominante, a noção de desequilíbrio ético e moral, a ausência de respeito pelas referências porque deixaram de ser referências... tudo me desgosta.
Os afectos são uma âncora num mundo assim... já o disse aqui também. Cuidar dos afectos.


Num país onde tantas vozes se desencontram e sobrepõem, tudo me soa mais a desafinação que outra coisa. Vozes dissonantes devia soar a vozes diversas, em que cada uma é única, liberta, autêntica. A cada um a sua voz, para um conjunto harmonioso de vozes...


Embora a tenha definido como estranha, a minha geração, actualmente no poder, tem a responsabilidade de pegar no melhor das gerações anteriores, e de lhe dar continuidade. Como me parece que está a falhar esse propósito, cheia de si própria e esquecida do essencial, que surjam então no cenário as gerações seguintes (a minha esperança), mais discretas, sensatas, educadas, cultas, tolerantes, dialogantes, no fundo, mais adequadas ao séc. XXI.


A sociedade do espectáculo já era. Pode ainda deixar marcas culturais, erosões sociais duradouras, mas... já não será referência para ninguém na época actual. O que precisamos para lidar com os desafios que nos esperam não são egos insuflados, delirantes, mas mentes brilhantes e analógicas.
Deste marketing político, de palanque armado a esconder bastidores onde a pobreza existe, irá surgir essa nova consciência abrangente. Que dará uma volta às prioridades, inevitavelmente. Não se tratará apenas de ajudar os mais desfavorecidos, tratar-se-á de questionar toda uma organização social que distingue os seus cidadãos nos seus direitos fundamentais.
Vivemos tempos estranhos e nada amáveis. Mas tudo tem o seu ocaso, tudo se esgota no seu próprio vazio.


Pelas minhas viagens blogosféricas recentes, já vi muitas vozes inspiradas... e nem imaginam a alegria que essa descoberta me deu! Não, não podem imaginar... São décadas já... de mediocridade a sobrepor-se ao melhor de nós, de erosão de valores, de esquecimento do que é essencial.
Que os Viajantes que aqui passam levem também deste lugar algum do carinho com que o desenhei, e quem sabe?, a esperança de uma construção ou reconstrução, ou de um fio condutor, dessa cultura da amabilidade, de gerações que a cultivaram.
Um Natal amável para todos!

 

publicado às 13:47

Do Manual do Tecnocrata: quando encurralado, finge que negoceias

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 10.12.08

John Silva estava verdadeiramente fascinado com a incrível capacidade de repetição de erros do tecnocrata portucalense. E com o facto de, após tantos erros, os erros passarem a ser considerados normais e até indicadores de uma "coragem invulgar".

Claro que John Silva, como viajante "do futuro", estava em vantagem pois conhecia os episódios seguintes. Mas, talvez por sentir uma quase compaixão pela nossa situação actual, deixou esta nova orientação que iria constar no seu Manual do Tecnocrata: quando encurralado, finge que negoceias. Acrescentou ainda outra orientação, a ser seguida só em último recurso: quando tiveres esgotado a negociação "a fingir", vitimiza-te. Tipo: há uma resistência generalizada em relação às reformas.

É também nesta lógica que um ex-Presidente se referiu à tal "coragem invulgar" aplicada à tecnocrata ministra da Educação. Pode ser o maior erro de que há memória, mas tem o carimbo de "reforma do governo de maioria PS", logo... é a lei! Chegámos à questão essencial.

"Os sindicatos é que radicalizaram isto". Enganam-se. O movimento de professores ultrapassou os sindicatos. Mas agora dá jeito neutralizar as posições de mais de 80% de professores. Passa-se por cima disso. Dá-se uma ideia de "querer negociar" para desmobilizar greves, mas é só a fingir.

Esta completa ausência de respeito pelos cidadãos, além de indicar uma clara incompetência para gerir recursos humanos e para negociar, irá trazer outra grave consequência: uma desconfiança generalizada. Quem pensa que "dividir para reinar" ainda é uma estratégia que funciona, pense de novo. A sociedade actual não é a mesma dos anos 40, 50, 60, ou mesmo dos anos 80 e 90. Este "fundamentalismo reformador" irá fracturar ainda mais a sociedade portuguesa.

Dizer cinicamente que "não se quer mais guerras, mas que não se compra a paz a todo o custo" segue esta lógica do "negociar a fingir". E isto entre adultos! Isso é que mais impressiona, isto é dito por adultos! A questão de fundo (talvez para psicanalistas) é que "eles se alimentam de guerras", "criam esses inimigos" porque precisam deles para justificar o seu poder.

 

 

publicado às 16:09

Guilherme d' Oliveira Martins referiu-se ao escritor e ao editor: “a quem a Cultura portuguesa muito deve”.
Para todos os amigos que o acompanharam nesse dia Alçada Baptista é, acima de tudo, o homem sensível, o homem dos afectos, o homem que compreendia as mulheres, o afável, o comunicador e o irónico.


Dizem, na televisão, que se notou a ausência de representantes da Cultura oficial, deviam estar a referir-se a membros do governo.
Mas essa é a beleza da coisa, a ironia da existência, que Alçada Baptista descobria nos pequenos pormenores. Pormenores que revelam esta estranha época que, espero, seja apenas um intervalo infeliz: rude, áspera, metálica, angulosa e ruidosa.


Acompanharam-no os amigos. Que melhor companhia poderíamos desejar?
A lógica divina é muito misteriosa...

 

Encontrei outras vozes:

 

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/2674606.html

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/2674363.html

http://cachimbodemagritte.blogspot.com/2008/12/antnio-alada-baptista-1927-2008.html

http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2008/12/alada.html

http://tempoquepassa.blogspot.com/2005/09/antnio-alada-baptista-um-testemunho-de.html

 

 

 

Ainda recentemente tinha mostrado ao meu pai um post em que eu defendia que o país era essencialmente masculino e referia o lado bélico do hino nacional. Ele riu-se e lembrou-me um discurso de Alçada Baptista num Dia de Portugal nos anos noventa. Como é que eu podia ter falhado esse pormenor, que causou tanta agitação na época? Pois bem, o meu pai trouxe-me um livro que gosta de reler (parte da sua infância está ligada à Covilhã e lembra-se de imensas histórias): A Pesca à Linha – Algumas memórias. Que descoberta fabulosa! Procurei logo esse famoso discurso do dia 10 de Junho de 1997, na cidade de Chaves:

 

“... na civilização ocidental, acabaram já as sociedades de poder e vivemos em sociedades político-técnicas que começam a revelar as suas fraquezas. Uma incomodidade geral instalou-se nas sociedades desenvolvidas, o que pode ser revelador de uma mudança no próprio tipo de civilização que vivemos. Julgo que há motivos para dizer que há indicadores que adivinham a passagem para as sociedades de diálogo e de cultura.
… aquilo que começa a assomar nos comportamentos políticos, aconteceu previamente na situação da cultura que deixou de ser um meio de divisão para ser um factor de união. Esta mutação foi talvez o factor mais valioso no processo de mudança, já que a cultura condiciona todas as formas de relação e permite maior progressão nesse processo do que a política ou a economia, onde permanecem grandes desconfianças e grandes conflitos de interesses.
… Há que referir ainda um fenómeno desta mutação anunciada. Refiro-me à presença do feminino que determinou, nestes últimos cinquenta anos, a entrada da mulher na História. Creio que este foi, muito possivelmente, o mais importante factor de mutação dos vários comportamentos e estruturas sociais, sendo certo ainda que essa presença se vai progressivamente acentuando. Resta saber se esta presença do feminino na sociedade implica uma maior presença de valores ditos 'femininos' na nossa história próxima , ou se a mulher, para poder avançar na História, teve de se apoderar de valores ditos 'masculinos' que permanecem ainda à volta do processo do poder.
Parece-me ainda um fenómeno cultural importante a progressiva dessacralização do poder. Após uma geração em que toda a intervenção e transformação da sociedade começava pela conquista do poder, assiste-se ao facto de o poder ter deixado de ser a referência essencial para a intervenção na sociedade, acentuando-se, por outro lado, a participação directa do cidadão que vem substituindo o Poder e a Razão de Estado.
Esta mutação não é fácil. Fácil é falar no anarquismo e não na preparação do homem para não necessitar do Poder. Borges, no seu livro El Informe de Brodie, profetiza: 'Creo que un dia mereceremos que no haya gobiernos'. Pergunto-me se já tomámos consciência deste 'merecimento' ou se, mais uma vez, esquecemos a nossa liberdade individual no processo da nossa libertação.
(…) Chamaria ainda a atenção de um fenómeno que me parece ter alguma especificidade na cultura portuguesa e que se prende essencialmente com aspectos desta mutação. Refiro-me à nossa capacidade de nos relacionarmos com 'o diferente'. O encontro com o 'diferente' é indispensável não só para podermos conhecer e usufruir de valores culturais que não conhecíamos, mas sobretudo porque o homem só toma consciência de si próprio perante o 'diferente'. Julgo que é possível dizer que, ao longo da história, o 'diferente' ou nos fascina ou nos aterroriza. Ora, a cultura que revela a identidade portuguesa tem mostrado uma capacidade de entrar em diálogo com o 'diferente'. É, em certo sentido, uma cultura de entendimento e diálogo, que lhe permitiu criar, nas cinco partes do mundo, grandes áreas de convivência.
(…) Julgo que uma cultura se impõe não tanto pela sua extensão mas pela sua vitalidade e que, sendo assim, o grande inimigo da Pátria não é tanto a Europa como a massificação. Direi mesmo que há uma Europa que nos interessa e que é a massificação que vai destruindo as circunstâncias e os valores que nos ligavam a uma terra e a uma identidade, e que a pouco e pouco nos deixa a vogar no espaço com a consolação de que somos cidadãos do mundo.
(…) há uma Europa que nos interessa: a que procura as suas culturas, identifica as suas regiões, lê os seus poetas, vê os quadros dos seus pintores, em resumo, procura dar a conhecer uma Europa que tem merecido o nosso empenhamento que, por sua vez, tem uma identidade cultural a que não somos alheios.
(…) Assim, no meio deste turbilhão da Europa, dos seus delírios competitivos e das suas perturbações, temos que ter presente que ela tem uma identidade cultural de que nos orgulhamos: a Europa das culturas, das regiões, das artes, das letras, das várias aventuras do pensamento. É isso que verdadeiramente constitui a aventura europeia e que tem que ser preservado e defendido como testemunho que é necessário fazer passar para o outro lado do futuro.
Queria lembrar que todas estas mudanças se passaram durante a minha vida e que, aqueles que, como eu, nasceram há setenta anos na Beira Baixa, tiveram a oportunidade de viver a sociedade feudal, a sociedade mercantil, a sociedade industrial e a sociedade de consumo.
Com isto quero significar que esta mudança de civilização não tarda e que por isso devemos preparar-nos para a sociedade de diálogo e cultura que se avizinha, (…).”

 

E é aqui que introduz o tema polémico da alteração da letra do hino nacional! Vejam bem como coloca a questão. Fabuloso!


“É altura de estarmos atentos ao que, nas nossas próprias instituições, se mantém ainda como elemento de uma civilização bélica, como seja uma diplomacia que em algumas pessoas se manifesta pela existência sistemática de 'inimigos', quando é necessário ter a subtileza de distinguir as situações de fraternidade e diálogo, das situações de defesa de um possível agressor. A própria letra do hino nacional não me parece adequada à nossa civilização, não pode ter nenhum eco no coração da juventude evocar a vitalidade da Pátria, gritando 'às armas' e propondo-nos 'marchar contra os canhões'.”

 

Bem, aqui já estou a imaginar os rostos da assistência! Não consigo recordar este episódio, a sério! Deve ter sido o momento zen mais saboroso da nossa vida política! Aquele homem afável, de voz melodiosa, a meter-se com a letra do hino da República que é vista ainda como o mito de valores que nem sequer ainda conseguiu concretizar, muito antes pelo contrário, o tabu! Céus! Deve ter sido digno de apreciar!


E para finalizar, Alçada Baptista dá-lhe a tonalidade da esperança, mas atenta, vigilante:


(…) temos de estar atentos àquilo que pode destruir a vitalidade da sua cultura. De resto, é quando esses valores estão em perigo, que uma Pátria mais desperta e se valoriza.” (em: "A Pesca à Linha – algumas memórias”, Editorial Presença, 2ª edição, 1998, pág. 162-167).

 

Haverá quem pegue neste fio condutor da nossa história, cultura, valores? Que esta geração registou, guardou e nos deu? Vejo um hiato a formar-se agora. Talvez as gerações que vêm a seguir à minha... talvez... A minha é uma estranha geração. Que teria muito a aprender com as que nos precederam, sobretudo quem nasceu nos anos 20 e 30, as mais interessantes, a meu ver. E as mais amáveis.

Céus! Vou ter saudades destas vozes suaves, ternas, cultas, tolerantes, e deliciosamente irónicas...

 

 

 

publicado às 13:34

No meio da agitação geral, em que ninguém parece ouvir ninguém (ou acreditar em ninguém ou sequer confiar), há exercícios óptimos para nos situarmos e encararmos tudo com alguma sobriedade. Para quem não tem muita paciência, pode ser uma simples caminhada (há roteiros fabulosos e ainda não está tudo ocupado por ventoinhas gigantes...)

John Silva (o nosso luso-descendente) já me tinha sugerido viajar por outros lugares, outras linhas que se cruzam, e ouvir outras vozes. Deixar sossegados os livros e os filmes, e partir à descoberta.

No início perdi-me nesse labirinto. Depois, segui fios condutores. O meu objectivo era, essencialmente, perceber melhor, por exemplo, que espécie de país habito. Certamente não seria pela televisão nem sequer pelos jornais que poderia ficar esclarecida. Perguntas como: Onde estou eu neste momento? Onde nos encontramos? O que nos aconteceu? Para onde nos levam?

Há mapas de cidades, museus e parques, que sinalizam a nossa situação geográfica: você está aqui.Pois bem, o Manual de Sobrevivência do Cidadão Comum também devia incluir uma espécie de indicação: você está aqui.

Não tem, por enquanto. Mas nas minhas viagens já há indicações gerais, sinais da situação actual, para nos guiarmos (e também para nos defendermos).

Dado o incrível desequilíbrio em que nos posicionamos agora, na qualidade de cidadãos comuns, em que tudo está do lado do poder, nunca como agora é necessária inteligência e criatividade para nos sabermos orientar e apoiarmos uns aos outros da melhor forma possível. 

Por exemplo, desta ideia estranha de democracia: a "legitimidade dos votos" estar acima da "legitimidade de grupos profissionais", como disse, em entrevista, um ex-Presidente, perante o protesto generalizado dos professores. (O mesmo que deitou abaixo uma maioria, ainda que de coligação.) Para já, nem quem votou PS adivinhava a alteração ao programa eleitoral que se iria seguir! Será que votaram no sentido das políticas seguidas? Qualquer semelhança entre o programa eleitoral e a orientação posterior, é pura coincidência.

Mesmo que se tentem manipular os números, a realidade está lá. Mesmo que se contratem agências publicitárias, profissionais da ficção nacional, a realidade irá aparecer à tona, visível, inconfundível. Talvez seja esta a razão de tanto nervosismo. A obsessão das sondagens, por exemplo, quase semanais (quem as paga?)

O tempo começa a jogar contra o poder em exercício. Mais uns meses e tudo ficará mais difícil de encobrir. Daí aquele palpite lançado por Santana Lopes "de se estar a preparar uma antecipação das eleições legislativas." 

Sim, dificilmente compreensível esta briga com o Presidente, a não ser... precipitar a "ida a votos", na esperança de ainda confirmar a sua posição no poder. A oposição ainda se está a preparar, é o raciocínio, ainda não estabilizou... a opinião pública ainda está connosco, pensam eles, os cálculos estão feitos, é ver os resultados das sondagens, os eleitores têm receio do futuro incerto e irão apostar no que já conhecem, jogar pelo seguro...

É plausível que este seja o seu raciocínio. Além disso, não esquecer que há muitas coisas por explicar e que há urgência de as manter escondidas. Negócios mal contados, inquéritos boicotados, manipulação de informação, you name it!

Pois bem, forget it! O Presidente certamente não iria delapidar uma boa imagem, que ainda conserva, cedendo nesta pretensão oportunista e batoteira: já reduziram a possibilidade de muitos emigrantes votarem, e agora aumentariam de novo as probabilidades de uma continuidade PS de mais 4 anos, evitando-se o período da avaliação dos resultados? No way! 

O Presidente  não iria certamente delapidar a confiança dos cidadãos, e uma imagem que construiu em todo o seu percurso, de seriedade, isenção (embora muito neutral para o meu gosto), discrição (condicionalismos do cargo?), e competência profissional.

Mesmo numa democracia tão precária como a nossa, tão amolgada e deteriorada, ainda confio que a batota tem limites.

 

 

publicado às 15:40

Do Manual do Tecnocrata: como deixar uma pegada histórica bem visível

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.12.08

John Silva (o nosso luso-descendente) conseguiu lançar mais uma mensagem pelo Simulador. Tinha programado a data de chegada para dia 1, porque vira vários documentários sobre os momentos históricos determinantes, e aquele era um deles. A designação "restauração" fascinava-o cada vez mais.

Restaurar = readquirir, recuperar, recobrar, reaver. // Restabelecer em bom estado. // Pôr novamente em vigor. // Restituir ao poder (uma dinastia, um soberano, um governo decaído). ...

A identidade de um povo, o orgulho de uma autonomia, tinha sido restaurada, pelo menos, ao nível nacional, dizia a mensagem. Mas o que terá acontecido realmente a um nível mais profundo? Não sabemos... 60 anos fora muito tempo.

Fascinava-o sobretudo os efeitos de determinados acontecimentos na forma como se viam a si próprios, como se sentiam (ou não) identificados com um determinado grupo.

Essa data e o seu significado histórico estava praticamente esquecida no início do séc. XXI... E no entanto, nunca aquele pequeno país precisara tanto de uma restauração...

Mas John Silva não se referia aqui propriamente aos valores que mantêm a coesão das comunidades (e a sua sobrevivência). Vira, pelo Simulador, a forma como a generosidade se mantinha viva naquele povo. Vira como tinham aderido a causas como o Banco Alimentar. O cidadão comum daquele país mantinha intacta essa marca registada.

Quando John Silva pega no termo "restauração" está a colocá-lo ao nível do poder em exercício. É ao poder que se dirige:

Alto e pára o baile! Vamos cá a fazer um balanço destes últimos anos de governação. Vamos cá a fazer a nossa avaliaçãozinha... Para já, queremos o país como estava antes da vossa passagem pelas cadeirinhas do poder. Queremos ver restauradas, ao nível em que estavam na altura, as seguintes variáveis: auto-estima, confiança, segurança, qualidade de vida. Queremos, pelo menos, tudo como estava. E isto não é exigir muito. É mais ou menos o que esperamos de alguém depois de um piquenique, que não deixe lixo no chão.

John Silva pensa incluir este tema no Manual do Tecnocrata, uma vez que há uma máxima no dito manual que colide com este princípio básico do Manual de Sobrevivência do Cidadão Comum: "se não sabe compor, pelo menos não estrague".

E a máxima do Tecnocrata é: deixa sempre uma pegada visível da tua passagem pelo poder. Pode ser um mamarracho, pode ser legislação, podem ser efeitos sociais duradouros. Tens de garantir que serás eternamente lembrado.

John Silva sabia que os efeitos da sua passagem seriam, pelo menos, duradouros. A pegada estava garantida. "Restaurar" tudo isso iria ser uma tarefa difícil. Mas John Silva sabia que uma nova mentalidade estava já a emergir. Sabia porque já tinha por lá viajado com o Simulador. Só adiantou o seguinte:

A atitude já não é a do individualismo (inconcebível no séc. XXI) mas da colaboração. Também não vemos pessoas ávidas de poder pessoal, isso é considerado obsoleto e até imaturo. As lideranças baseiam-se em mobilização e responsabilização. Nas organizações (e na gestão de recursos humanos) são respeitadas prioridades como o bem comum. As negociações têm resultados porque seguem a fórmula: todos ganham.

Por enquanto, isto ainda soa a ficção cientifica, pelo menos por cá. Mas também não me parece que seja "uma questão de fé". Em relação às questões ambientais, os governos e as populações já estão a alterar hábitos por uma necessidade de sobrevivência. Será assim também noutras áreas, como a económica, a social, a política. Além disso, tudo isto é um percurso, o trabalho nunca está terminado. É só preciso ir desenhando um caminho (John Silva lembrou-me aqui um filme que adorara na infância: Mary Poppins. Um caminho de giz colorido...)

 

 

publicado às 10:13


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